
O VELHO, O RAPAZ E O BURRO (E A MÁSCARA)
Um velho camponês vivia com o seu neto num casebre. No pequeno estábulo desse casebre acomodava-se, como podia, um burro muito obediente. A região em que os três viviam fora assolada por um terrível vírus, o qual obrigou o ancião a abdicar, em março, de metade da pensão de velhice, que já mal dava para o caldo. E para que abdicou ele dessa quantia?
Para comprar uma máscara cirúrgica na botica da vila. Foi-lhe vendida por especial favor, custando-lhe os olhos da cara. Assim passavam os dias: velho, rapaz e burro remetidos a um confinamento angustiante. Até que um dia o ancião resolveu oferecer um passeio higiénico ao burro (sim, porque o burro de porco nada tinha).
Mas o rapaz, farto de estar em casa a decorar tabuadas (as escolas tinham sido fechadas), pediu ao avô para também ir passear o burro. Pôs-se então o problema de haver uma só máscara. O velho não hesitou: cedeu-a ao rapaz. E abalaram.
Não tinham andado um quilómetro, já uns pacóvios comentavam: "Coitado do velho. Vai ali desprotegido, sem máscara, enquanto o marmanjo do rapaz vai todo contente!" O velho, tomando consciência do seu erro, tirou a máscara ao rapaz e, de imediato, a utilizou. E continuaram o passeio, apreciando a paisagem, à medida que caminhavam.
Uns metros mais à frente, encontraram um deputado do PAN, que logo os admoestou: "Acham bem? O burro vai completamente à mercê do vírus. Porque é que não lhe colocam a máscara?" O velho, sem papas na língua, disparou: "Olhe lá, você não é mais amigo do burro do que eu, entende!" E abalaram para o casebre, desiludidos com as bocas do mundo.
Nessa noite, o velhote, sabendo que o rapaz era um verdadeiro mestre na arte de fazer máscaras de Carnaval, ordenou-lhe: "Amanhã vais fazer três máscaras, para nós todos colocarmos nas fuças quando formos passear." E o moço cumpriu as ordens do avô.
Passou-se um dia - ocupado pelo trabalho das máscaras de Carnaval. No dia seguinte, lá foram os três mascarados, encetando um novo passeio higiénico. Os outros campónios, ao verem aquele espetáculo, ficaram sem palavras. O rapaz ia mascarado de Billy the Kid, o velho ia de John Wayne e o burro envergava a máscara de uma alta representante do Ministério da Saúde.
E assim fizeram todos os dias. Todos os dias se mascaravam da mesma maneira e davam o seu passeio, sem que as bocas do mundo os incomodassem. Quando o vírus deixou de ameaçar as redondezas, ficaram muitos campónios doentes, mas o velho, o rapaz e o burro ganharam para sempre a imunidade contra o rebanho.
